Quando pensamos em Jesus, lembramos do mestre que ensinava às multidões, acolhia quem sofria e nos deixou ensinamentos necessários à vida. Na Doutrina Espírita, nós o reconhecemos como guia e modelo, conforme a questão 625 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Podemos também olhar para essa relação de maneira mais próxima: o que significa considerar Jesus um amigo, e que diferença essa amizade pode fazer na maneira como vivemos e convivemos?
A amizade de Jesus envolve proximidade e confiança, mas também aprendizado e responsabilidade. Desejamos receber consolo nas horas difíceis; aceitar uma orientação que nos pede mudança pode exigir mais esforço. Essa amizade não é uma promessa de que as dificuldades desaparecerão. Ela nos oferece referências para enfrentá-las sem abandonar aquilo que reconhecemos como verdadeiro e bom.
Uma amizade que contribui para o nosso bem
Em uma amizade verdadeira, encontramos alguém com quem compartilhar alegrias e preocupações, diante de quem podemos mostrar nossas dificuldades. Mas, ao recordar as amizades que mais contribuíram para nosso crescimento, percebemos que nem sempre foram aquelas em que encontramos apenas concordância.
Às vezes, um amigo nos ajuda justamente porque tem coragem de mostrar algo que não estávamos percebendo, questionar uma atitude ou nos incentivar a enfrentar uma situação que preferíamos evitar. A amizade não se ocupa apenas de preservar nosso conforto: procura contribuir para nosso bem. Essa compreensão pode nos ajudar a perceber a amizade que Jesus nos oferece.
No capítulo 15 do Evangelho de João, Jesus chama os discípulos de amigos e relaciona essa amizade ao que lhes deu a conhecer do Pai. Não se trata somente de uma demonstração de carinho. Ao compartilhar seus ensinamentos, ele os convida a participar conscientemente de uma proposta de vida fundamentada no amor.
Podemos, então, nos perguntar: estamos interessados apenas no auxílio que esperamos receber de Jesus ou também naquilo que podemos aprender com ele? O consolo é desejado por todos nós. A orientação, porém, pode nos convidar a rever atitudes às quais estamos habituados. Receber essa amizade inclui disposição para aprender, mesmo quando o aprendizado nos retira de uma posição confortável.
O medo e as escolhas de cada dia
Em Lucas 12, Jesus se dirige aos discípulos como amigos ao falar do medo daqueles que podem matar o corpo. Eles estavam sujeitos a perseguições e rejeições pela mensagem que recebiam e propagavam. Jesus conhecia esses riscos e não procurava convencê-los de que nada difícil aconteceria. Oferecia uma compreensão mais ampla da existência, para que o medo não os impedisse de permanecer fiéis àquilo que reconheciam como verdadeiro.
À luz da Doutrina Espírita, essa passagem nos remete à imortalidade da alma. O ser humano não se resume ao corpo físico, e a morte não representa o desaparecimento da individualidade espiritual. Continuamos existindo, com nossas conquistas, sentimentos e dificuldades ainda por superar. Isso não significa que a vida física tenha pouco valor ou que devamos aceitar passivamente a violência e o sofrimento. A existência corporal é uma oportunidade preciosa de aprendizado e transformação, e temos o dever de preservá-la.
Há valores que ultrapassam as circunstâncias materiais e que não deveriam ser abandonados diante de uma dificuldade. Na sequência da passagem, Jesus aproxima a responsabilidade espiritual da confiança na providência divina, lembrando que nem os pequenos pássaros são esquecidos pelo Pai. Na compreensão espírita, essa responsabilidade não precisa ser entendida como medo de uma condenação eterna, mas como reconhecimento de que nossas escolhas têm consequências e participam da construção de nossa condição espiritual.
Nem sempre nossos medos estão ligados à morte ou a um perigo físico. Podemos temer perder o reconhecimento de alguém, receber críticas, admitir um erro ou tomar uma decisão desconfortável. Pensemos em duas pessoas que discutem. Depois, uma delas percebe que exagerou, foi injusta ou usou palavras inadequadas. Sabe que seria importante procurar a outra, mas teme parecer fraca ou que o pedido de desculpas seja entendido como se toda a responsabilidade pelo conflito fosse sua.
Por receio, ela pode deixar de tomar uma atitude que contribuiria para restabelecer a harmonia. O medo de perder uma posição passa a pesar mais que aquilo que a consciência reconhece como correto. Sentir medo não significa falta de fé: é uma reação humana natural, muitas vezes necessária à proteção. A dificuldade surge quando permitimos que ele se torne o principal orientador de nossas escolhas e nos leve a abandonar princípios importantes.
Pedro e a oportunidade de recomeçar
Pedro conviveu de perto com Jesus, acompanhou seus ensinamentos e demonstrou entusiasmo e confiança em sua proposta. Chegou a dizer que estaria disposto a acompanhá-lo nas maiores dificuldades. Quando Jesus foi preso e a situação se tornou perigosa, porém, descobriu que ainda não tinha toda a coragem que imaginava: negou conhecê-lo três vezes. Ao perceber o que havia feito e recordar as palavras do mestre, chorou amargamente.
Podemos imaginar o conflito de alguém que amava Jesus e, diante de uma ameaça concreta, não conseguiu agir conforme aquilo em que acreditava. Também nós podemos ter convicções sinceras e desejar agir corretamente, mas descobrir, em certas circunstâncias, dificuldades que ainda não conhecíamos suficientemente. Há uma distância entre nossas intenções e a capacidade de colocá-las em prática.
O que acontece depois é decisivo. Em João 21, após a ressurreição, Jesus conversa com Pedro e lhe pergunta três vezes se o ama. Essa passagem pode ser compreendida como um momento de reconstrução da relação. Jesus não reduz Pedro ao erro cometido: confia-lhe a responsabilidade de cuidar de suas ovelhas, oferecendo continuidade ao aprendizado e ao serviço. Não precisa tratar o erro como irrelevante para reconhecer a possibilidade de renovação.
O amor declarado é chamado a se tornar compromisso, responsabilidade e ação. Essa experiência nos ajuda a observar como lidamos com os próprios erros e com os erros dos outros. Às vezes, somos tão rigorosos conosco que permanecemos presos à culpa por situações que já não podemos modificar. Em outras, justificamos tanto nossas atitudes que deixamos de reconhecer a necessidade de mudança. Reconhecer o erro é necessário, acompanhado da disposição de aprender com ele. Nossas dificuldades não precisam se tornar uma definição permanente daquilo que somos capazes de realizar.
André Luiz: acolhimento e responsabilidade em Nosso Lar
Em Nosso Lar, de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, encontramos uma experiência em circunstâncias diferentes. André Luiz narra seu sofrimento e sua desorientação após a morte física. Havia sido médico, tinha família e uma posição social relativamente confortável, mas a formação intelectual não era suficiente para compreender tudo o que vivenciava. Podemos desenvolver a inteligência, adquirir cultura e entender assuntos complexos, conservando dificuldades na maneira de lidar com sentimentos, escolhas e relacionamentos.
Ao reconhecer a necessidade de auxílio, André Luiz recorre sinceramente à oração e recebe o socorro de Clarêncio, um benfeitor espiritual. Não é ajudado por ter levado uma existência moralmente perfeita, mas porque está fragilizado e necessita de amparo. A disposição para receber ajuda e continuar melhorando ocupa um lugar importante nessa experiência.
O socorro não resolve automaticamente todas as dificuldades. À medida que recupera o equilíbrio, André Luiz começa a compreender aspectos de si mesmo que precisam ser examinados e encontra oportunidades de aprendizado e trabalho. A transformação acontece gradualmente, quando deixa de se concentrar exclusivamente nas próprias dificuldades e amplia a compreensão da vida e da importância de servir.
Clarêncio não é o próprio Jesus nessa narrativa. Podemos, contudo, reconhecer em suas atitudes princípios presentes no Evangelho: acolher quem sofre, respeitar sua dignidade e oferecer oportunidade de renovação. Esses princípios ajudam a compreender como deveriam se estruturar as entidades que se propõem ao atendimento espiritual e material: considerar o momento de quem procura ajuda e oferecer condições para renovar o entendimento e os sentimentos.
Pedro e André Luiz enfrentam as consequências de suas dificuldades, mas não ficam limitados a elas. Recebem oportunidades de continuar aprendendo e assumir novas responsabilidades na construção do bem. O auxílio espiritual não consiste necessariamente em retirar todos os obstáculos do caminho; pode oferecer condições para desenvolver recursos que ainda não possuímos.
Receber auxílio e participar da própria transformação
Quando enfrentamos uma dificuldade, é natural recorrer à oração em busca de amparo e orientação. Diante de uma enfermidade, desejamos recuperação; em um conflito familiar, harmonia; em uma preocupação material, uma solução que devolva tranquilidade. São desejos legítimos. Pode acontecer, entretanto, de querermos que a situação mude sem examinar suficientemente o que precisamos transformar na própria maneira de agir.
Pedimos harmonia, mas temos dificuldade para escutar quem pensa diferente. Desejamos compreensão, mas julgamos com rigor os erros alheios. Procuramos paz, enquanto alimentamos pensamentos e atitudes que contribuem para nossa inquietação. Isso não significa que todo sofrimento seja produzido por erros nossos. Muitas situações estão relacionadas a circunstâncias que não controlamos e às escolhas de outras pessoas. Mesmo quando não somos responsáveis pela origem de um problema, podemos encontrar oportunidades de desenvolver uma maneira melhor de enfrentá-lo.
Em vez de pensar apenas no que esperamos receber da amizade de Jesus, podemos perguntar como ela influencia nossa relação com os outros e conosco. No Evangelho de João, a amizade está ligada ao mandamento de amar uns aos outros. Jesus nos convida a transformar o aprendizado em uma maneira diferente de viver. Estudar o Evangelho, conhecer os princípios espíritas e reconhecer a beleza dos ensinamentos não produz automaticamente amadurecimento moral.
É possível compreender a paciência e ainda ter dificuldade de exercitá-la em casa, no trabalho ou no trânsito. Podemos falar de humildade com convicção e resistir quando alguém aponta um erro nosso. A transformação envolve hábitos, sentimentos e reações construídos ao longo de muito tempo. Modificá-los exige esforço; não acontece da noite para o dia.
Construir, tijolo a tijolo
Nos pequenos momentos encontramos oportunidades reais de crescimento espiritual. Ouvir alguém com mais atenção e reconhecer uma atitude injusta podem ser começos de uma transformação importante. Se Jesus nos ensina a compreender, precisamos exercitar a compreensão. Se nos ensina a perdoar, precisamos começar a trabalhar os ressentimentos. Se nos convida a amar, precisamos encontrar maneiras de transformar o amor em atitudes, considerando nossas condições e as necessidades de quem convive conosco.
O amor envolve sentimentos, mas também escolha, decisão e ação. Podemos falhar mesmo com intenções sinceras, como Pedro; isso não elimina a possibilidade de renovação. O auxílio pode abrir condições para recomeçar, como na experiência de André Luiz, mas precisamos participar conscientemente da própria transformação. Não é necessário esperar que todas as dificuldades desapareçam: o aprendizado pode começar na família em que vivemos, com as pessoas presentes em nossa vida e os recursos que temos agora.
Nos próximos dias, podemos observar uma situação em que seja possível agir de maneira um pouco mais coerente com o que aprendemos de Jesus: uma conversa adiada, uma atitude a reconhecer, uma oportunidade de ajudar ou um esforço para compreender alguém com quem temos dificuldade de conviver. A convivência nos permite perceber a nós mesmos e aprender a acolher o outro em suas diferenças. Podemos tentar por vários dias sem alcançar muito sucesso; ainda assim, essas pequenas escolhas fazem parte do desenvolvimento espiritual.
Uma casa não sai da planta somente porque foi imaginada pelo arquiteto e pelo engenheiro. Precisa das mãos de quem a constrói, enfrentando as dificuldades do trabalho, do tempo e das relações. Sem essa ação, a casa não fica de pé nem acolhe ninguém. Assim também acontece com nossa construção espiritual: ela se realiza tijolo a tijolo, sobre um alicerce de entendimento e compreensão à luz do Evangelho, na tentativa de colocar cada tijolo todos os dias.
Talvez uma das maneiras mais sinceras de corresponder à amizade de Jesus seja permitir que as pessoas encontrem, no modo como as tratamos, alguma expressão dos ensinamentos recebidos dele. Reconhecê-lo como mestre e amigo pode orientar uma maneira mais consciente e amorosa de viver e conviver, inspirando confiança para enfrentar os medos, humildade para reconhecer limitações e disposição para continuar aprendendo.
Para continuar esse aprendizado, conheça o Estudo do Evangelho da Casa de João Pedro e consulte a agenda de encontros e atividades.

